BLOG DA MATRAMBA Cartucheiras

Sinapses Metafóricas

Joshua Redman Elastic Band –Put it In Your Pocket, mas antes escute esta, Just a Moment…. Com certeza está nas músicas mais tocadas no meu CaveBuk*2. dsc06714

Sinapses Metafóricas – 002/X

Antes mesmo do Grande Colapso no fim de 2013 o mundo não andava nada bem. A mídia não ajudava e com a grande parte da população descrente de valores universais e necessários para viver em um mundo com bilhões de pessoas, os números de mortes assustavam. Novas doenças começaram a ser descobertas e empresas farmacêuticas começaram a lucrar muito com isso. Países como o Brasil, investiram pesado na extração de derivados de petróleo em águas profundas. Com a 3ª grande quebra da bolsa (1929-2008-2012) e a invasão dos hackers em diversas bolsas mundiais, o mundo econômico capitalista onde fui criado entrou em colapso. 2 elementos básicos da natureza se tornaram essenciais em sua essência : terra e água. Tecnologia, vivência e experiência de vida também se tornaram pilares no final de 2012. Uma nova era apareceu no horizonte, mas não em um dia bonito e de céu limpo, e sim como uma triste manhã fria e enevoada. Uma nova era que para muitos apareceu de uma hora para outra, mas para os que sobreviveram ou os que sofreram menos, já estavam antenados pensando como se virar caso esse mundo vire uma merda só. Seis anos depois dos fatos concretizados, me vejo como sobrevivente. Sorte? Talvez, mas não creio que tive. As minhas viagens pelo mundo favoreceram e ainda pelo fato de estar instalado havia 10 meses no ano de 2012,  entre 2 ilhas na costa da Colômbia, basicamente metade do tempo em cada uma. Antes de me mudar para a lá e dessa viagem como um Jack Kerouac latino do futuro, as cidades grandes já beiravam o colapso. Mas o que achava mais impressionante, mesmo para o final da década,, em 2011 era com as pessoas tinham uma espécie de óculo, onde algumas enxergavam a verdade e outras nem sabiam e nem sentiam o que estava acontecendo. Parecia uma espécie de hipnose do consumo, ou uma lente caleidoscópia onde dependendo da criação, ciclo de amigos e outros fatores, bloqueavam o óbvio.

13/11/2019 YET assino como ainda, mas isso é por agora, amanhã pode ser o talvez e depois só Deus sabe, por que mesmo nesses dias confusos e prestes a acabar, não pretendo dar datas nem dicas, mas sim relatos de uma experiência de alguém que sobrevive, e luta para viver.

*2 CaveBuk – fabricado por 4 países diferentes e montados dentro de navios em águas internacionais desde 2014. Desde então não houve mais avanços tecnológicos e proliferou-se as peças de segunda mão. Não tenho muitos dados, mas nota-se a quantidade deles nas ruas. “No label”, grafitados, com capas em couro ou protegidos por uma capa de metal escovado, mas sempre CaveBuk. O que era o ápice do Grande Colapso, possuir um NetBook ou qualquer dos brinquedos do Steve Jobs, hoje é uma necessidade quase maior do que possuir um número do contribuinte. Pouco maior que a palma da mão, deslizava em 3 camadas, todas touch screen que se intercambiavam para aparecer o foco da câmera ou o projetor holográfico por exemplo. Bateria de lithiun e com multi-carregadores – cinética, solar, Xbluetooh e para todos conectores e voltagens. Sem sistema operacional, rodava basicamente como um antigo DOS, ou uma versão inicial do Linux do final da década de 90. Ele fechado, parecia uma caixa de óculos “Transformers”, rígida e inquebrável, mas aberto era basicamente tudo, tudo mesmo. Usava uma cartucheira de lona de bambu impermeabilizada, onde cabia ele perfeitamente, e mais um kit de ferramentas e outros itens básicas de sobrevivência.

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Algum lugar, em uma data recente antes do fim do mundo….

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Sinapses Metafóricas – 001/X

Silêncio. Uma das poucas coisas boas e raras de uma noite invernal e chuvosa em uma babilônia qualquer. Somente a chuva. Pingos e o bater das asas de uma pomba assustada fugindo de uma ratazana faminta. Murmúrios inconstantes, lapsos de memórias entorpecidas por algumas gramas da droga mais saborosa do mundo. O riscar de um Zippo derretendo e queimando um cigarro contrabandeado do Panamá, inebriam toda aquela noite encharcada. Noto de longe alguns artistas da Nova Ordem, riscando com diamantes sintéticos a vidraça de um restaurante chinês, e outros pulam a cerca de uma indústria abandonada para grafitar a fachada.  De onde estou, vejo tudo. Mas procuro respostas internas,. “Minha poesia desgarrada abr’olhos com estes olhos meus?*1” Não, desta vez será necessário muito além de olhos, ouvidos e memória. As palavras escritas, focam o pensamento para o agora, por mais que esteja escrevendo sobre o que passou. Mas o frio corta a alma e com o coração gélido e angustiado, o tremor vem de dentro e não de fora. Tento escrever de luvas mas não consigo e já desisti de fumar porque o vento estava fazendo esse papel por mim. Foco. Imagino o mundo quando ainda não era mundo. Quais preocupações e angústias existiam? Sua mulher ser atacada por um urso enquanto dorme ou pior seria se a colheita desse ano não rendeu o esperado e teremos que caçar elefantes para sobreviver? Mas como o tempo assim, terei que tirar das perguntas do que puder. Como diziam antigamente, em uma época onde ainda existia leite: “terei que tirar leite de pedra”. E não que isso seja um equívoco, mas quero ao menos tentar mostrar a necessidade do homem em tirar proveito das atitudes e momentos ruins já que pelas boas, foi provado por muitos séculos que o homem em si, não é nada sem o erro.

Aqui do alto deste guindaste, me protegendo da chuva ácida pelo teto da cabine, com o ar entrando pelos vãos dos vidros quebrados, gostaria de ter o controle de tudo. Mas esse tudo seria o poder de mudar o presente ou o passado, se tivesse que escolher? Não sei, o passado mudaria o presente, mas mudando o presente, poderia imaginar algo além dos erros que cometemos, acabaria mudando o futuro também. Mas com tanto poder, o limiar da vontade de praticar coisas boas e não ter a noção das coisas ruins que isso poderia ocasionar, são tão intensas e densas quanto o cheiro que vem do leste da ponte pêncil-mecânica, onde se situa a maior indústria de energia de biomassa do mundo. Lembre-se, essa usina só é possível com um cidade como essa, com 20 milhões de habitantes defecando e produzindo essa merda toda. Tampo o nariz, subindo a gola da frente do meu casaco. Adoro esse casaco antigo, é o único que sobreviveu ao incêndio da minha casa, há 12 anos atrás, e hoje vi mais uma função nele, além de esquentar e fechar o capuz para só sobrar os olhos. Não existem mais lojas aqui que fabriquem esse em larga escala, e é ideal para fugir das câmaras de controle. Desisto mais uma vez e corto as pontas das luvas para dar mais mobilidade. Abro a minha cartucheira, e decido fazer outro baseado. Saco também um pouco de fita adesiva de dentro, e aproveito para fechar um pouco mais as janelas quebradas com uns saco de plástico abertos. Essa missão de recortar sacos, me remeteu a uma memória longínqua, me arrancando um sorriso no canto da boca. Quando tinha uns 9 anos eu e o meu irmão, adorávamos fazer pára-quedas com sacos para os nossos bonecos de ação, mas isso acabou quando o meu próprio irmão decidiu fazer um para ele, e pulou do 3° andar. Nada grave, somente uma perna quebrada. Perto dos anos seguintes, isso foi um arranhão. Volto ao meu texto, e procuro fazer itens da minha memória, para depois ficar mais fácil de ir a fundo em cada um deles. Mas em quase duas gerações de vida, as nuancias são enormes, a violência e rapidez dos fatos também. Mas a idéia não é poupar nada nem ninguém. A idéia é escrever sobre a feiúra e o belo, o passado e o presente, o futuro e o infinito. Boom !

10/08/2019

*1 – Pablo Neruda

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Quem disse que o tempo bom traz felicidade? Já não aprendemos como são os seres humanos? Então porque não vibrarmos com o feio, o úmido e o obscuro?

Fim, 2019

27/07/2019

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